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Temos visto um aumento significativo no diálogo sobre a igualdade de gênero na Dance Musicnos últimos anos. De painéis a oficinas de produção, coletivos femininos e grandes iniciativas de marcas, parece que a diversidade na dance music está sendo levada a sério, mas não o suficiente para que essa questão não seja mais discutida ou mesmo para que não haja separação de gêneropara discussões.

 

Sabemos que o sexismo existe, não apenas dentro da dance music, mas dentro de quase todas as esferas da vida moderna. Ainda estamos vendo isso refletido nas estatísticas salariais ou nas estimativas de prosperidade para aqueles que não frequentam o ensino superior. As mulheres ainda têm seus direitos reprodutivos ditadas: o aborto e a pílula do dia seguinte ainda são tópicos tabus e estão sujeitos a controles do governo. As mulheres ainda são, em grande parte, excluídas das diretorias, enquanto os principais cargos de CEO são preenchidos por homens.

 

Mas de quem é a responsabilidade, na verdade, de moderar a divisão da diversidade no seio da dance music? De quem é a responsabilidade de ser nossa própria força de mudança? Como editora chefe de uma revista de dance music, muitas vezes me perguntei como eu me sentiria se ser mulher fosse um fator decisivo em meu emprego.

 

Sinto mais do que nunca que é responsabilidade das empresas, revistas, agências e produtores de eventos impor uma divisão de 50/50 e que os detentores do dinheiro na dance music façam os ideais de igualdade e inclusão acontecerem. Com isso em mente convidei 3 personalidades da dance music para falar como é ser mulher e trabalhar com a Dance Music.

 

 

“Quando comecei há 20 anos, eram poucas as DJs mulheres, e ainda menos mulheres à frente de clubs ou outros empreendimentos da cena. Muita coisa mudou desde então – artistas como a Nina Kraviz, Peggy Gou, Nastia, The Black Madonna, Honey Dijon em capas de revistas, como headliners de grandes festivais, e ganhando cachês tão altos quanto de seus colegas homens; enquanto isto, cada vez vemos mais donas de clubs, bookers, managers, engenheiras de som se destacando ao desempenhar seus papéis com excelência. Nunca foi tão bom ser mulher na cena – ao mesmo tempo, seria uma ingenuidade falar que ainda não tem muitas questões a serem discutidas e melhoradas.

O machismo ainda existe, mesmo que de maneira velada. Ainda a mulher é questionada se é talentosa o bastante, se é o namorado que produz, se o fato dela ser bonita ou sexy ou se vestir de uma certa maneira a favorece. Ainda existe a necessidade de mudar o mindset de muitos promotores que “esquecem” de incluir mulheres em seus eventos. Ainda existe o comentário maldoso sobre as mulheres que ficam com pessoas da indústria. Enquanto isto, as mulheres, e eu me incluo nisto, trabalhamos e fazemos as coisas girarem e acontecerem, para conquistarmos nossos lugares como protagonistas, cada vez mais. Eu gosto de falar sobre isto, mesmo que o tema se repita todos os anos, porque ainda é necessário jogar luz sobre as questões, e inspirar diálogo.

Todo mundo precisa aprender sobre isto todos os dias e querer melhorar, como muita gente na cena melhorou, como muitos organizadores agora se preocupam em trazer line up com mulheres e homens em números parecidos, como as mulheres se reconhecem e estão mais perto umas das outras.” – Eli Iwasa – DJ, vocalista do Bleeping Sauce, dona do Caos e do Club 88.

 

“Infelizmente, no momento em que vivemos ainda colocarem o fato de ser mulher como algo diferente na profissão é inadmissível. Tenho 20 anos de carreira de Dj e mesmo lá no início essa colocação me incomodava. Porque as pessoas acham que um ser DJ mulher é algo diferente? Lamentável. Somos todos iguais. Saber tocar não depende de sexo. Ter atitude de enfrentar uma pista de dança. Fico triste de perceber que o numero de mulheres na profissão ainda é bem pequeno em relação aos homens e também por perceber que a mídia ainda faz separação pelo sexo.” – Ingrid Diniz – Produtora, DJ e residente do Club D-EDGE São Paulo.

 

“É um fato que mulheres ganham menos que homens dentro do nosso país, isso acontece em todas as áreas e em todos os setores e isso gera uma desigualdade tremenda dentro da nossa sociedade. Adicionado a isso, creio que existem profissões onde o machismo prevalece, um exemplo disso é a minha profissão paralela a ser DJ. Eu sou Engenheira Civil atuante e é difícil coordenar uma obra de 150 profissionais, sendo todos eles homens. Existe sim preconceito e principalmente no setor onde atuo.

Engenharia de todos os tipos, bombeiras, futebolistas e afins são tidas erroneamente como profissões de homens, mesmo que tenhamos um ídolo chamado Marta (jogadora de futebol) que é nada mais nada menos do que a melhor jogadora do mundo pela sexta vez na categoria unissex.

Dentro da música eletrônica, creio que existe também este estigma social e sofremos um preconceito onde menos mulheres são escaladas para grandes lines. Acredito que muito disso se dá, pois, mesmo tendo muitas artistas incríveis por aqui, sabemos que a quantidade de mulheres dentro da cena eletrônica ainda é menor que a quantidade de homens atuantes. Neste caso, com uma amostra menor de artistas femininas, temos proporcionalmente um número menor de mulheres com um bom tempo de estrada e também com música de alta qualidade. Claramente isso não quer dizer que homens são melhores do que mulheres, isso significa que devemos incentivar cada vez mais novas mulheres a se interessarem pela dance music e consequentemente fazerem parte da cena nacional.

Várias formas de incentivar isso podem ser pensadas! Na festa em que sou residente/co-fundadora aqui em Curitiba, a Alter Disco, temos séries de livestreams que lançamos e eu me foco em lançar sempre uma mulher. Este cuidado em mostrar ao público quem são as meninas que estão fazendo acontecer por aqui dando a credibilidade devida as artistas é algo essencial e deve ser fomentado. Colocar as mulheres em voga faz com que a nova geração de possíveis futuras DJs se apaixone pela profissão e queira se aperfeiçoar, mudando o cenário atual.

É importante que as mulheres falem sobre o feminismo, isso nos ajuda a gerar um conhecimento e uma certa indignação geral sobre o assunto fazendo com que as pessoas comecem a pensar diferente, mas adicionado a isso temos que exercê-lo. Portanto, mãos a obra!” – Barbara Boeing  – DJ, Engenheira Civil e Co-Fundadora do Alter Disco

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